A EXPLORAÇÃO ECONÔMICA DE UNIDADES CONDOMINIAIS VIA PLATAFORMAS DIGITAIS: UMA ANÁLISE SOB A ÓTICA DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA


12/05/2026 às 16h08
Por Advogada Alessandra Souza de Almeida

RESUMO

O presente artigo analisa a viabilidade jurídica da locação de imóveis por curto período por meio de plataformas digitais, como o Airbnb, em condomínios edilícios de destinação residencial. O estudo fundamenta-se nas recentes decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que distinguem a locação por temporada da hospedagem atípica. O objetivo é demonstrar o equilíbrio entre o direito de propriedade e a soberania das convenções condominiais. Conclui-se que a proibição da atividade é válida, desde que devidamente prevista no estatuto coletivo do condomínio.

Palavras-chave: Airbnb. Condomínio Edilício. STJ. Direito de Propriedade. Hospedagem.

1. INTRODUÇÃO

O advento da economia compartilhada trouxe novos desafios ao Direito Imobiliário brasileiro. O conflito central reside na antinomia entre o Art. 1.228 do Código Civil, que assegura ao proprietário o direito de fruir de seu bem, e o Art. 1.336, que impõe o dever de dar à unidade a mesma destinação do edifício, preservando o sossego, a salubridade e a segurança dos demais condôminos.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1 A Natureza Híbrida da Atividade

A divergência doutrinária paira sobre a subsunção do Airbnb à Lei do Inquilinato (Lei 8.245/91) ou à Lei Geral do Turismo (Lei 11.771/08). Enquanto a primeira regula a locação por temporada (até 90 dias), a segunda caracteriza o contrato de hospedagem pela oferta de serviços auxiliares e alta rotatividade.

O STJ, ao analisar o RESP 1958752, por exemplo, em seu bojo entendeu-se que a exploração via aplicativos assemelha-se a um "contrato atípico de hospedagem", o que colide com a natureza estritamente residencial de muitos condomínios.

2.2 O Precedente do STJ e a Soberania da Convenção

As decisões das Terceira e Quarta Turmas do STJ pacificaram que os condomínios podem, por meio de suas convenções, restringir ou proibir a locação de curta temporada via plataformas digitais. O argumento central é que a alta rotatividade de pessoas estranhas ao convívio comunitário compromete a segurança e a rotina dos moradores fixos, desvirtuando a finalidade residencial da edificação.

2.3 O Quórum para Alteração da Regra

Para que a proibição seja válida e oponível a terceiros, não basta uma decisão administrativa do síndico. É imperativo que a proibição conste na Convenção do Condomínio. Caso a convenção seja omissa, sua alteração exige o quórum de 2/3 (dois terços) dos condôminos, conforme previsto no Art. 1.351 do Código Civil.

2.4 A Violação dos Pilares Condominiais e Impactos Econômicos

A defesa da proibição sustenta-se na premissa de que a hospedagem de curtíssima duração subverte os "três S" do direito condominial: Segurança, Sossego e Salubridade.

Segurança e Sossego: A circulação ininterrupta de indivíduos não identificados pela comunidade agrava a vulnerabilidade do edifício.

Ao contrário do locatário por temporada tradicional, o usuário de plataformas digitais muitas vezes não estabelece vínculos com as normas internas, resultando em poluição sonora e uso inadequado das áreas comuns em horários impróprios.

Salubridade e Infraestrutura: Há um impacto direto na salubridade e conservação do patrimônio. A rotatividade elevada gera um desgaste acelerado dos elevadores, portões e instalações recreativas (piscinas e academias).

Prejuízo Financeiro: O uso intensivo por pessoas que não residem permanentemente no empreendimento cria uma externalidade negativa: o custo da manutenção extra é rateado por todos os condôminos, enquanto o lucro da exploração comercial é exclusivo do proprietário da unidade. Tal cenário configura enriquecimento sem causa e desequilíbrio econômico-financeiro do condomínio, justificando a imposição de limites para preservar a integridade física e financeira do empreendimento.

3. CONCLUSÃO

A decisão do STJ não representa uma proibição genérica ao uso do Airbnb, mas sim o reconhecimento da autonomia da vontade coletiva frente ao uso desvirtuado da propriedade.

A defesa dos pilares da vida em comum e a proteção contra o desgaste prematuro da estrutura física são argumentos robustos que autorizam o condomínio a impedir a transformação de unidades residenciais em apart-hotéis informais.

  • Espcialista em Direito Civil e Processo Civil
  • Expertise em Direito Imobiliário
  • Expertise em Direito Condominial e Assessoria para
  • Pós-graduanda em Neurociência comunicação e desenv
  • Mestranda em Psicologia Criminal com Especializaçã
  • Atua no mercado há 10 anos
  • Membro do Tribunal de Ética da Ordem dos Advogados
  • Foi Membra da Comissão Nacional de Direito Condomi

Referências

BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Brasília, DF: Presidência da República, 2002.

BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (4. Turma). Recurso Especial nº 1.819.069 - RS. Relator: Ministro Luis Felipe Salomão. Julgado em: 20 abr. 2021. DJe: 27 mai. 2021.

BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (3. Turma). Recurso Especial nº 1.884.483 - PR. Relator: Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva. Julgado em: 23 nov. 2021. DJe: 01 dez. 2021.

SCAVONE JUNIOR, Luiz Antonio. Direito Imobiliário: Teoria e Prática. 18. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2023.


Advogada Alessandra Souza de Almeida

Advogado - Brasília, DF