BYD no Brasil: incentivos fiscais, nacionalização e os desafios da indústria automotiva sustentável


23/02/2026 às 09h52
Por Claudia Regina Gabriele Advogados

A instalação da BYD Brasil, com sua fábrica em Camaçari (BA), representa um marco na indústria automotiva nacional, especialmente no segmento de veículos elétricos e híbridos. No entanto, o projeto enfrenta desafios tributários e regulatórios que ilustram a complexidade do planejamento fiscal para empresas multinacionais e a necessidade de políticas públicas alinhadas com a atração de investimentos sustentáveis.

O dilema tributário: imposto de importação e competitividade

A BYD busca uma redução do Imposto de Importação (II) para veículos semidesmontados (SKD – Semi Knocked Down) de 25% para 10%, argumentando que a carga tributária atual inviabiliza a competitividade frente aos veículos totalmente montados.

O paradoxo é evidente: no mesmo dia da cerimônia de apresentação da fábrica (1º de julho de 2025), o II subirá de 18% para 25% (elétricos) e de 20% para 28% (híbridos plug-in). Se a BYD não obtiver a redução pleiteada, terá que arcar com custos mais elevados na fase inicial de operação, impactando seus preços e estratégia de mercado.

Do ponto de vista tributário, a demanda da BYD faz sentido:

Veículos semidesmontados exigem mão de obra local, gerando empregos e movimentando a cadeia produtiva.

Aumentar o II nessa fase pode desincentivar a nacionalização, pois encarece a transição para a produção local.

O governo, por outro lado, precisa equilibrar a proteção da indústria nacional com a atração de investimentos. Se conceder a redução, pode criar um precedente para outras montadoras. Se mantiver a alíquota, pode retardar a consolidação da BYD no Brasil.

Nacionalização e ESG: o futuro da BYD no Brasil

A montadora já investiu R$ 1,4 bilhão dos R$ 5,5 bilhões previstos e anunciará 3 mil novas vagas. No entanto, o grande desafio será cumprir a exigência legal de nacionalizar a produção em 12 meses, abandonando o sistema SKD.

Além disso, a empresa planeja:

  • Produção local de baterias, aproveitando reservas de lítio no Brasil.
  • Atração de fornecedores, apesar de a BYD ser verticalizada (produzindo muitos componentes internamente).
  • Expansão no mercado de frotas, com modelos como o King, voltado para taxistas.

Essa estratégia está alinhada com os princípios ESG (Environmental, Social, and Governance), pois:

  •  Reduz a pegada de carbono ao substituir importações por produção local.
  •  Gera empregos e desenvolvimento regional em Camaçari, cidade afetada pelo fechamento da Ford.
  •  Fomenta a transição energética, com veículos elétricos e híbridos mais acessíveis.

O papel do planejamento tributário na atração de investimentos

O caso da BYD ilustra como incentivos fiscais bem estruturados podem acelerar a industrialização e a sustentabilidade. Se o governo conceder a redução do II para veículos semidesmontados, facilitará a transição para a produção local. Caso contrário, a empresa pode enfrentar dificuldades iniciais que atrasem seus planos.

Além disso, a BYD precisará de um planejamento tributário robusto para:

  • Otimizar créditos de PIS/COFINS e IPI na cadeia de suprimentos.
  • Aproveitar benefícios fiscais estaduais (como isenções de ICMS na Bahia).
  • Estruturar operações de mercado de carbono, já que veículos elétricos contribuem para metas de descarbonização.

A cerimônia em Camaçari marca o início de uma nova era para a indústria automotiva brasileira. Resta saber se o ambiente regulatório e fiscal será favorável para que a BYD – e outras montadoras sustentáveis – transformem o Brasil em um hub de mobilidade limpa.

O futuro da indústria verde no país depende não só de investimentos privados, mas também de políticas públicas inteligentes.

Claudia Regina Gabriele Advogada Tributarista | Especialista em Nacionalização de Empresas 

Contato: claudiareginagabriele@gmail.com | LinkedIn: Claudia Regina Gabriele Advogados

  • BYD
  • incentivo fiscal
  • desafios tributários
  • nacionalização de empresas

Referências

(Artigo baseado na reportagem do Valor Econômico de 30/06/2025)

Fonte: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2025/06/30/byd-abre-as-portas-da-fabrica-e-espera-reducao-de-imposto.ghtml

BYD no Brasil: incentivos fiscais, nacionalização e os desafios da indústria automotiva sustentável – CRG


Claudia Regina Gabriele Advogados

Advogado - São Paulo, SP


Comentários