E se fosse seu filho


03/11/2017 às 12h06
Por Marcela Moletta Advocacia e Consultoria

Diante da maior crise política e econômica já enfrentada na Venezuela, milhares de imigrantes deixam seus lares, amigos, família, tudo que construíram e buscam, em Boa Vista-RR, fugir da fome e da violência vividas naquele país.

Trocam o conforto e a segurança dos seus lares por degradação, humilhação, condições sub-humanas. Passam a viver em galpões, ginásios, locais sem estrutura adequada, todos aglomerados. Uma verdadeira ofensa à dignidade da pessoa humana. Situações jamais imaginadas por professores, engenheiros, advogados, e até mesmo juízes que tentam a sorte no Brasil.

Aqui não se pretende discutir a legalidade da imigração. O objetivo do presente artigo é fazer uma significativa reflexão acerca da situação em que se encontram, nesta cidade, as crianças e adolescentes venezuelanas.

Nem é preciso andar muito pela capital para perceber o cenário vivido por elas. Tornou-se fato corriqueiro encontrá-las nos semáforos, muitas nos colos das mães abordando os veículos, outras sentadas nas calçadas, cobertas com papelão.

Infelizmente, na maioria das vezes, estas crianças e adolescentes não são privadas apenas de alimentos, mas principalmente de educação, moradia, lazer, saúde e sobretudo, segurança.

Em todas as situações o que se vê é uma verdadeira afronta aos direitos da criança e adolescente, pois independente de nacionalidade, todas devem ter desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, de forma sadia e em condições de liberdade e dignidade, como prevê a Convenção dos Direitos da Criança, promulgada no Brasil pelo Decreto n.º 99.710 de 21 de novembro de 1990 e que encontra-se em perfeita harmonia com o Estatuto da Criança e do Adolescente.

É salutar entender a importância da cooperação internacional nestas relações, onde se buscam melhores condições de vida para crianças e adolescentes, proporcionando-lhes, ao menos, o mínimo de dignidade, o que pode ser conquistado com educação, lazer, alimentação e saúde.

Atualmente seria possível mensurar qual o maior desafio enfrentado por estas crianças e adolescentes? Talvez a fome ou a falta de moradia. Muitas pessoas já estão contribuindo para amenizar tais dificuldades, mas certamente muito ainda precisa ser feito, até porque diariamente novos imigrantes atravessam a fronteira com destino a esta cidade.

Antes de nos indagar se este problema também é nosso, é necessário entender que as crianças são vítimas indefesas da crise vivida e que além das privações materiais, elas carregam traumas por tudo que já enfrentaram.

Cada um de nós tem um significado e um papel diferente na vida delas. Podemos contribuir de muitas formas, seja doando alimentos, roupas, brinquedos, levando música, cantos ou apenas atenção e sorrisos. O principal é doar a esperança de um futuro mais digno.

Neste momento quero saber qual tem sido sua contribuição para estas crianças. Teria você dado algumas moedas que estavam soltas no carro ou na carteira? Ou levado a elas um lanche com suco?

Nosso dever vai além das poucas moedas catadas e doadas ou do lanche entregue. Não podemos fechar os olhos, nos calar e achar que se trata de um problema apenas do poder público. Devemos olhar com os olhos do coração e nos comover com estas crianças, pois a humanidade deve a elas o melhor de seus esforços, para que sonhem com dias de paz.

Vamos agir, nos unir, chamar a família, os vizinhos, montar uma roda de amigos, discutir e planejar como cada um pode contribuir. Afinal de contas, todas as pessoas grandes foram um dia crianças, mas poucas se lembram disso (Pequeno Príncipe).

É fato que o ser humano se constrói e reconstrói com as experiências e relações vividas. Portanto, não pense que contribuir é uma obrigação, pois certamente você mesmo tem muito a aprender com as crianças e adolescentes.

Este é um apelo para levarmos alegria a estas crianças, mostrando que aqui o povo é acolhedor e hospitaleiro, até porque, segundo Dalai Lama, todos os seres têm um propósito neste mundo e é nosso dever descobrir como podemos colaborar para tornar a vida mais próspera e bela, não somente a nossa, mas principalmente a de todos os que nos rodeiam!

Marcela Moleta Borges

Especialista em Direito de Família e Sucessões

OAB/RR 1773

 

  • Direitos humanos
  • Direito da criança e do adolescente
  • Direito de Família
  • Proteção à família
  • Dignidade da pessoa humana

Referências

Publicação realizada no https://marcelamoletaborges.jusbrasil.com.br/artigos/499939366/e-se-fosse-seu-filho


Marcela Moletta Advocacia e Consultoria

Advogado - Boa Vista, RR


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