ENTRE ACUSAÇÕES E DESESPERO: O QUE ACONTECEU COM A BOLSA DE VALORES E O DÓLAR?


28/10/2026 às 09h06
Por Paulo Henrique Martins

Por Paulo Henrique Martins — Advogado 

Uma notícia chega ao celular e, em poucos minutos, vira anúncio de desastre, aparecem mensagens dizendo que as empresas perderam tudo e que o Brasil quebrou, o susto se espalha mais rápido que a explicação, pois existe um detalhe que muda essa história, tendo em vista que perder valor na bolsa não significa, automaticamente, perder dinheiro do caixa de uma empresa.

Vamos começar pelos acontecimentos, na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, o Ibovespa caiu 13,88%, enquanto o dólar à vista subiu 8,21%, encerrando o dia a R$ 5,4027, na terça-feira, dia 27, a bolsa recuou mais 0,51%, aos 175.710,05 pontos, porém ainda acumulava valorização de 9,05% no ano, sendo que o dólar também mudou de direção na terça-feira, caindo 0,97% fechando próximo de R$ 5,35, portanto, neste dia, a bolsa e o dólar caíram juntos, esse detalhe mostra por que precisamos ter cuidado com explicações automáticas, embora frequentemente caminhem em sentidos opostos, bolsa e dólar também podem subir ou cair juntos.

Para entender essa relação, vale observar quem movimenta a bolsa brasileira, segundo levantamento da XP divulgado em outubro/2026, os estrangeiros responderam por 63,2% do volume negociado, os 36,8% restantes ficaram com as demais categorias de participantes, incluindo pessoas físicas, fundos e instituições locais, porém isso não significa que 63,2% das pessoas que investem sejam estrangeiras, o percentual mede a participação nas negociações, em uma comparação simples, de cada R$ 100,00 negociados naquele levantamento, aproximadamente R$ 63,00 estavam associados à participação estrangeira.

Essa presença ajuda a compreender o movimento do dólar, quando recursos chegam do exterior para comprar ativos brasileiros, a troca de dólares por reais pode aumentar a oferta da moeda americana e contribuir para sua queda, ao mesmo tempo, as compras podem favorecer a valorização das ações, enquanto que na saída, pode acontecer o contrário, o investidor vende suas ações, recebe reais e compra dólares para remeter os recursos ao exterior, se muita gente procura a moeda americana ao mesmo tempo, seu preço pode subir, enquanto as vendas pressionam as ações para baixo.

É por isso que, em determinadas situações, a bolsa sobe e o dólar cai, ou a bolsa cai e o dólar sobe, mas essa relação não funciona como uma regra automática, vender ações não obriga o investidor a retirar dinheiro do país, ele pode manter os recursos aqui ou comprar outros investimentos, além disso, o câmbio responde aos juros, ao comércio exterior e aos acontecimentos internacionais.

Agora vem outra diferença importante, uma ação perder valor não significa que a mesma quantia saiu da conta bancária da empresa.

Imagine uma casa avaliada em trezentos mil reais que passa a encontrar compradores dispostos a pagar duzentos e oitenta mil, o patrimônio perdeu valor, mas ninguém retirou vinte mil reais da conta do proprietário, com as ações, também precisamos separar a mudança de avaliação do dinheiro disponível em caixa.

Nas negociações habituais entre investidores, o pagamento vai para quem vendeu a ação, a empresa recebe recursos quando emite novas ações em uma oferta primária, isso não torna a queda irrelevante, mas explica por que desvalorização e falta de dinheiro no caixa são situações diferentes.

Os preços também refletem expectativas, segundo a Reuters, parte dos investidores havia se posicionado esperando a vitória de Flávio Bolsonaro e reviu suas decisões após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhada de preocupações com as contas públicas, quando muitas ordens de venda chegam juntas, os compradores podem oferecer menos.

O economista Robert Shiller estudou como fatores psicológicos e sociais influenciam os mercados, o entusiasmo pode estimular compras e o medo pode intensificar vendas, já Eugene Fama contribuiu para explicar como novas informações são incorporadas aos preços, suas pesquisas ajudam a compreender por que prever os movimentos de curto prazo é tão difícil.

Esses estudos oferecem instrumentos para interpretar o comportamento dos investidores, sem permitir que toda alta seja tratada como acerto ou toda queda como desespero.

A população tem motivos para acompanhar esses movimentos, vez que um dólar mais caro por bastante tempo pode aumentar custos de produção e pressionar preços, e uma turbulência prolongada também pode prejudicar investimentos, mas seus efeitos precisam ser observados ao longo do tempo.

Uma queda expressiva merece atenção, o diagnóstico de que um país quebrou exige muito mais, emprego, renda, inflação, produção e contas públicas também fazem parte dessa avaliação, compreender o caminho do dinheiro é mais útil do que acompanhar o caminho do desespero.

  • Bolsa de valores, Dólar, Ibovespa, Economia brasil

Referências

Estadão Conteúdo. Fechamento do mercado financeiro, 27 de outubro de 2026, fechamento e desempenho acumulado do Ibovespa.

Exame. Ibovespa fecha em baixa e acumula queda de 14,3% em dois dias; dólar caiu 1%, 27 de outubro de 2026, cotações do dólar à vista e desempenho da bolsa.

InfoMoney, com levantamento da XP. Brasil lidera atração de capital entre emergentes na Bolsa: quais os próximos passos?, outubro de 2026, participação estrangeira nas negociações, os 36,8% representam o complemento aritmético dos 63,2% informados.

Reuters. Ibovespa tem queda modesta em dia de acomodação após tombo; incertezas persistem, 27 de outubro de 2026.

B3. Ofertas públicas, distinção entre ofertas primárias e secundárias.

SHILLER, Robert J. Speculative Asset Prices, conferência de 2013, versão revisada em 2014; Real Academia Sueca de Ciências, apresentação das contribuições dos premiados Eugene Fama, Lars Peter Hansen e Robert Shiller, 2013.


Paulo Henrique Martins

Advogado - Apucarana, PR