Machado de Assis e a arte de não ser esquecido.


18/09/2026 às 02h17
Por Alexandre Rocha Pintal

Em Teoria do Medalhão, Machado de Assis exprime uma das preocupações mais comuns dos pais para com os filhos — o início da vida adulta e a inserção social. Além do evidente retrato de uma sociedade essencialmente burguesa de época, o conto fornece algumas apreensões importantes que dedilho a seguir.

Como integrante do serviço público majoritariamente burocrático do contencioso de massa, em que a impessoalidade costuma conduzir a atuação profissional mais cotidiana de peticionamento, não me furto a observar quão relevante continua sendo a manutenção dos bons relacionamentos profissionais e pessoais. Se não posso dizer ter conseguido manter todos os amigos que fiz nesta vida, alguns porque se mudaram de cidade ou país e outros porque as afinidades se dissolveram na maturidade, outros há que permaneceram. E é aqui que a história de Machado pretende chegar: aos frutos das boas relações.

Em um mundo sobejamente virtualizado como o de hoje, afigura-se muito útil alertar os jovens que imaginam uma vida isolada como oásis das conturbações dos ônibus lotados ou das concorrências desleais. As boas relações ainda superam em muito o currículo, o histórico de feitos e a aparência, ao contrário do que indica a vã filosofia quixotesca, e advogar o contrário seria ingenuidade.

Não se trata de festejar imorais — e, portanto, incompetentes, no sentido mais amplo do Direito, para o exercício de cargos públicos — que hoje dão show de horrores em canal aberto para uma audiência estarrecida, mas de perceber os degraus que não só a eles, mas também aos tecnicamente competentes e moralmente idôneos, conduziram ao topo de uma carreira — e de qualquer carreira.

Normalmente, quem se presta a um concurso público procura justamente o caminho oposto, de fuga do fisiologismo que, nas empresas, se faz mais acentuado, refletindo-se na influência que o grau de amizade ou simpatia exerce sobre a hierarquia imediata dos cargos e promoções. O esquecimento estaria inevitavelmente vinculado à qualidade e à profundidade das relações profissionais de cada um no decorrer da vida.

Ocorre que, no serviço público em geral — já estive no federal, no estadual e hoje estou no municipal —, a gestão costuma ser ainda mais fisiologista do que a das empresas, devido ao elemento eleitoral. Não dá para tapar o sol com a peneira. O fator eleição constitui o principal foco de direcionamento estatal e de espraiamento da modelagem diretiva por todos os órgãos administrativos, tenham eles ou não cargos comissionados em sua estrutura, porque a cooperação do quadro efetivo se faz necessária independentemente de opinião pessoal. Isso constitui justamente a nota de profissionalismo público ou privado que se deve ter em mente, excluídas, naturalmente, hipóteses ilegais que destoem da obviedade daquilo que um servidor deve acatar como ordem direta ou diretriz de trabalho.

Há que se compreender que, enquanto a esplanada executória do Estado se caracteriza pela meritocracia do concurso e pela reafirmação técnica da eficiência fiscalizada, a camada administrativa, ainda que permeada, na maioria dos órgãos e entidades, por servidores de carreira, estará inevitavelmente condicionada à hierarquia piramidal ascendente de matiz político e, portanto, fisiologista, até as respectivas cúpulas do Executivo, do Legislativo, do Judiciário e do Ministério Público, na figura dos ocupantes dos cargos de direção superior indicados politicamente.

Embora o conto de Machado de Assis descreva inicialmente a contingência profissional como fator essencial de ingresso nos círculos letrados — “podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes” —, referindo-se aos vinte e um anos recém-completados do filho Janjão, seu pai insiste em dizer que a vida lhe exigiria mais, pelo menos para sair da mediocridade.

Assevera o matuto patriarca que o ofício do varão poderia não agraciá-lo com renda suficiente à sua ambição e que, por isso, deveria dedicar especial atenção ao engajamento social, preparando-se desde logo na arte do discurso (compêndios de retórica) e na participação habitual nas rodas de jogos, como voltarete, dominó e whist, este último virtuoso em ensinar a circunspecção, ou o valor do silêncio.[1] O bilhar facilitaria o diálogo pela opinião frequentemente comum dos jogadores sobre os mais variados assuntos.

Na ausência de amigos que se dispusessem a acompanhá-lo, deveria frequentar bibliotecas, não propriamente para se dedicar aos livros, mas para emaranhar-se em diálogos com quem as frequenta, sem preconceito contra assuntos banais: “... vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer coisa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Mazade”.

O pai também aconselha o filho a praticar natação, equitação ou ginástica como métodos de relaxamento e restituição das forças. Até mesmo as caminhadas pelas ruas serviriam como forma de conhecer gente. Por mais erudito que fosse, não deveria afastar-se da linguagem simples, compreensível por todos, “sem notas vermelhas, sem cores de clarim”. Recomenda ainda o uso do senso comum — e do politicamente correto, em linguagem contemporânea — como recurso à retórica: “Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública.”

Em vez de “um inquérito pedantesco, uma coleta fastidiosa de documentos e observações, análise das causas prováveis, causas certas, causas possíveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal, da manipulação do remédio, das circunstâncias da aplicação; matéria, enfim, para todo um andaime de palavras, conceitos e desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso aranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes! — E esta frase sintética, transparente, límpida, tirada ao pecúlio comum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espíritos como um jorro súbito de sol.” Aqui está o estímulo à capacidade e à utilidade da síntese, evitando a prolixidade a todo custo.

Muitos estudiosos das obras machadianas, que, por razões óbvias, me permito omitir, enxergam um viés negativo nos aconselhamentos relativos à apropriação linguística da ciência sem aprofundamento acadêmico no conto, por exemplo, quando o pai assevera ao filho: “Condeno a aplicação, louvo a denominação... toda a recente terminologia científica; deves decorá-la... convém tomar as armas do teu tempo. E de duas uma: — ou elas estarão usadas e divulgadas daqui a trinta anos, ou conservar-se-ão novas: no primeiro caso, pertencem-te de foro próprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para mostrar que também és pintor.” Seria um mote à ilusão das aparências.

Ocorre que Machado de Assis contextualiza previamente as circunstâncias de tal recurso de vida — a insatisfação pessoal com os frutos da profissão. Não quer com isso apregoar a “ópera do malandro”, mas trazer à luz uma realidade anterior, fundamental e também empírica, tanto ou mais do que a ciência produzida pela academia, pelo menos nas áreas sociais, cuja experiência se dá mais precisamente na própria história da sociedade do que em ensaios circunspectos de intelectuais muito frequentemente distantes do mundo prático. Esquecem-se da apropriação da descoberta científica acadêmica, e até mesmo espontânea, pela linguagem e, por consequência, de sua incorporação à tradição e ao senso comum popular.

Em outras palavras, não há nenhum demérito na perspicaz observação do sociólogo escritor, mas, antes, um preconceito equivocado de quem analisa a literatura demasiadamente concentrado na bolha universitária e no seu estúpido monopólio científico contemporâneo.

Longe de representar mera contestação literária, existem repercussões bastante práticas nessa constatação, como a legitimidade de qualquer um para fazer ciência extracátedra e obter reconhecimento oficial do Estado a respeito de um trabalho, valendo o mesmo para a educação extraescolar, em homeschooling ou por tutoria. O mais nefasto movimento para a ciência mundial foi justamente a cerca formal que os agentes do Estado impuseram à sua produção, tanto limitando o financiamento de iniciativas espontâneas, pela restrição das bolsas a professores formalmente contratados, quanto direcionando subsídios à produção científica conduzida exatamente nos mesmos moldes. Mais do que isso, porque não se trata apenas de condicionar a ciência ao dinheiro: há também a exclusão político-ideológica do cientista.

Esta é uma das razões mais profundas do atraso científico de países como o Brasil: a limitação da atividade científica ao âmbito escolar e universitário e sua legitimação exclusiva nesse espaço. O invento nunca foi e jamais será prerrogativa do Estado ou dos governos, e as nações que já compreenderam isso agilizam sua evolução econômica e social por meio de instituições mais flexíveis e abertas em suas relações com pesquisadores independentes, por assim dizer.

Machado ainda fornece relevante lição de vida sobre o fisiologismo político, quando o pai diz: “Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo. Comissões ou deputações para felicitar um agraciado, um benemérito, um forasteiro, têm singulares merecimentos, e assim as irmandades e associações diversas, sejam mitológicas, cinegéticas ou coreográficas. Os sucessos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser trazidos a lume, contanto que ponham em relevo a tua pessoa.”

É claro que o tom exagerado serve ao recurso ficcional de ilustrar um pai preocupado com o anonimato do filho na escalada social, mas o mundo da internet merece exatamente a mesma preocupação, porque o tempo nela despendido, à exceção das trocas de mensagens, invariavelmente significa atividade solitária. Até que ponto tal atividade é consumida na aquisição de conhecimento ou em entretenimento elevado ao espírito é a questão que se coloca.

Fica o alerta do escritor quanto à empatia em eventos familiares e sociais: “No caso de que uma comissão te leve a casa o retrato, deves agradecer-lhe o obséquio com um discurso cheio de gratidão e um copo d’água: é uso antigo, razoável e honesto. Convidarás então os melhores amigos, os parentes, e, se for possível, uma ou duas pessoas de representação.”

Finaliza sobre as dificuldades da aceitação social: “É difícil, come tempo, muito tempo, leva anos, paciência, trabalho, e felizes os que chegam a entrar na terra prometida! Os que lá não penetram, engole-os a obscuridade. Mas os que triunfam! E tu triunfarás, crê-me. Verás cair as muralhas de Jericó ao som das trompas sagradas.”

Talvez apenas devamos ponderar ao jovem que a obscuridade ou a limitação social não dependem apenas dele e que o anonimato é lugar-comum na passagem por esta vida, constituindo o protagonismo a exceção. E que a dedicação a alguma atividade específica bem-feita, em vez de muitas mal executadas, reduz as chances de fracasso. De mais a mais, o conto espelha a realidade da vida humana com muita propriedade.

Se, parafraseando o autor e mesclando-o à expressão futebolística, aos 45 do segundo tempo não te vierem “comissões, irmandades [...] ter contigo [...] o odorífero das flores, o anilado dos céus, o prestimoso dos cidadãos, o noticioso e suculento dos relatórios”, talvez não seja porque tenhas falhado, mas porque a terra é ruim. A ideologia e a burrice podem constituir um muro intransponível. E muitos cientistas e artistas morrem obscuros, até que seu trabalho seja prestigiado por uma sociedade pronta para reconhecê-lo.

Machado, contudo, reserva ainda ao futuro medalhão uma última ferramenta social: a chalaça. Recomenda-lhe cultivá-la, desde que seja “chalaça, de nossa casa, familiar, que se não vá quebrar a cabeça dos outros para saber o que é”. O conselho encerra perfeitamente a lição: até o humor, para circular bem, precisa alcançar o interlocutor antes de impressioná-lo.

Cabe, portanto, uma última chalaça para estas linhas. Se, depois de estudar, trabalhar, escrever, cultivar amigos, frequentar rodas, falar com clareza, exercitar a circunspecção do whist e evitar cuidadosamente quebrar a cabeça alheia, ainda assim ninguém vier bater-lhe à porta com flores, comissões ou deputações, não desanime: talvez você não tenha fracassado como medalhão. Talvez tenha cometido coisa muito mais grave — passado a vida ocupado demais trabalhando.

[1] O whist é um tradicional jogo de cartas inglês, para quatro jogadores divididos em duas duplas, precursor do bridge. Muito difundido nos séculos XVIII e XIX, exige atenção, memória, cálculo e, sobretudo, discrição entre os parceiros, que não podem revelar as cartas ou intenções por meio de comentários. Daí a associação feita no conto entre o jogo e a aprendizagem da circunspecção e do silêncio.

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Alexandre Rocha Pintal

Advogado - Curitiba, PR