No dia em que o Psicopata tomou posse, não houve tanques nas ruas.
Foi essa a primeira grande vitória de seu governo.
Os tanques, aliás, eram desnecessários. O país já havia sido suficientemente desarmado por dentro.
Durante anos, os cidadãos haviam aprendido que protestar era inútil, reclamar era perigoso, discordar era inconveniente e perguntar demais poderia custar um emprego, uma nomeação, um contrato, uma promoção ou, no mínimo, a tranquilidade da família. A democracia continuava funcionando com admirável pontualidade: havia eleições, discursos, sessões solenes, cerimônias, urnas eletrônicas, entrevistas e fotografias oficiais. Só havia desaparecido uma coisa — a desagradável mania de as pessoas acreditarem que o poder lhes pertencia.
O Psicopata compreendera antes de todos que uma sociedade não precisa ser silenciada para permanecer em silêncio.
Basta que cada indivíduo imagine, isoladamente, que será o próximo a sofrer as consequências de falar.
A técnica era simples.
Um empresário recebia uma visita.
Um jornalista recebia uma advertência.
Um servidor recebia uma sindicância.
Um juiz recebia um recado.
Um adversário recebia um processo.
Outro recebia uma ameaça.
E quase todos recebiam alguma coisa.
Nada que, isoladamente, parecesse suficiente para caracterizar uma ditadura. Era esse o requinte.
A liberdade não desapareceu de uma vez. Foi sendo parcelada.
Primeiro, venderam-se alguns princípios.
Depois, algumas reputações.
Depois, algumas consciências.
Finalmente, vendeu-se a própria ideia de que ainda havia alguma coisa à venda.
A imprensa também descobriu as virtudes da prudência. Os jornais continuaram existindo, naturalmente. Apenas passaram a depender cada vez mais dos favores de quem distribuía publicidade, verbas, concessões, contratos e acessos.
Descobriu-se então uma extraordinária inovação editorial: era possível publicar a verdade sem necessariamente contrariar o poder.
Bastava escolher cuidadosamente qual verdade.
As manchetes passaram a obedecer a uma regra tácita:
“Noticiar tudo aquilo que não produza consequências.”
E os jornalistas mais corajosos tornaram-se comentaristas de história antiga.
Os empresários, por sua vez, aprenderam uma lição ainda mais objetiva. O Estado tornara-se grande demais para ser enfrentado e importante demais para ser ignorado. Pequenos negócios fecharam. A classe média descobriu que impostos e inflação tinham uma peculiaridade: individualmente pareciam suportáveis; acumulados, transformavam a independência econômica numa espécie de luxo aristocrático.
Quanto menos pessoas podiam viver sem o Estado, mais pessoas precisavam agradá-lo.
E quanto mais pessoas precisavam agradá-lo, menos pessoas podiam contrariá-lo.
O Psicopata chamava isso de estabilidade.
Seus adversários chamavam de decadência.
Os economistas chamavam de ajuste.
Os juristas chamavam de institucionalidade.
O povo, simplesmente, chamava de “é assim mesmo”.
Foi essa expressão que finalmente salvou o regime.
“É assim mesmo.”
Quando o primeiro juiz honesto foi afastado, disseram:
— É assim mesmo.
Quando o segundo foi humilhado:
— É assim mesmo.
Quando o terceiro foi obrigado a abandonar a carreira:
— Alguma coisa ele deve ter feito.
Quando desapareceram os três últimos jornalistas independentes:
— Mas ainda existem muitos jornais.
Quando um empresário recusou-se a colaborar e perdeu seus contratos:
— Certamente havia problemas fiscais.
Quando um oposicionista deixou de aparecer em público:
— Talvez esteja cansado da política.
Quando o Parlamento aprovou uma lei que ninguém havia lido:
— Deve haver alguma justificativa técnica.
Quando a Suprema Corte passou a absolver os amigos e condenar os inimigos:
— A Justiça sabe o que faz.
E quando alguém finalmente perguntou quem julgaria os juízes que julgavam todos os demais, houve alguns segundos de silêncio.
Depois alguém respondeu:
— Isso é muito complicado.
O Psicopata adorava essa frase.
Nada é mais útil ao autoritarismo do que convencer pessoas inteligentes de que resistir é complicado demais.
O mais curioso foi que, depois de algum tempo, o próprio Psicopata começou a acreditar que era indispensável.
Não porque fosse particularmente competente.
Mas porque havia conseguido destruir, uma por uma, as alternativas à sua competência.
Essa é talvez a característica mais eficiente dos regimes construídos em torno de personalidades autoritárias: primeiro o líder afirma que ninguém pode substituí-lo; depois trabalha diligentemente para tornar verdadeira a própria afirmação.
Quando finalmente chegou a hora de uma nova eleição, o resultado já estava decidido antes de os eleitores chegarem às urnas.
Não porque os votos fossem necessariamente fraudados.
Era algo mais sofisticado.
O eleitor já havia sido convencido de que qualquer alternativa seria pior.
Assim, o país votou livremente.
E escolheu aquilo que lhe havia sido cuidadosamente ensinado a considerar inevitável.
Na noite da vitória, o Psicopata apareceu diante da multidão.
Sorriu.
Agradeceu à democracia.
Prometeu união nacional.
Falou em pacificação.
Disse que seria presidente de todos.
E foi aplaudido.
No fundo da praça, porém, um velho perguntou:
— E agora?
Ninguém respondeu.
Não porque ninguém soubesse.
Mas porque todos sabiam.
Talvez seja essa a verdadeira tragédia da história.
O Psicopata não chegou ao poder sozinho.
Ele precisou de bajuladores, covardes, oportunistas, empresários dependentes, jornalistas domesticados, burocratas ambiciosos, magistrados venais, políticos sem convicção e cidadãos assustados.
Mas, sobretudo, precisou de tempo.
Tempo para que cada abuso parecesse pequeno.
Tempo para que cada exceção parecesse necessária.
Tempo para que cada silêncio parecesse prudência.
Tempo para que cada derrota da liberdade pudesse ser comemorada como vitória da ordem.
Por isso, quando alguém perguntar como tudo começou, ninguém saberá responder.
Uns dirão que começou no primeiro escândalo.
Outros, na primeira ameaça.
Outros, na primeira nomeação.
Outros, quando a imprensa foi comprada.
Outros, quando a Suprema Corte foi capturada.
Estarão todos parcialmente errados.
Começou muito antes.
Começou no instante em que uma sociedade descobriu que era mais confortável assistir à deterioração da liberdade alheia do que correr o risco de defendê-la.
Há, entretanto, uma variável que o Psicopata jamais conseguiu controlar completamente.
Pessoas.
Pessoas que ainda podem se reunir.
Pessoas que ainda podem falar.
Pessoas que ainda podem escrever.
Pessoas que ainda podem empreender sem pedir licença moral ao Estado.
Pessoas que podem votar sem transformar o adversário em inimigo.
Juízes que podem decidir contra o próprio governo.
Jornalistas que podem publicar aquilo que desagrada aos seus financiadores.
Universidades que podem ensinar pensamento crítico.
Associações que podem organizar cidadãos.
Empresários que podem preservar alguma independência econômica.
E, principalmente, cidadãos que compreendam que a democracia não consiste apenas em depositar uma cédula numa urna de quatro em quatro anos.
O antídoto contra o Psicopata não é outro Psicopata.
É uma sociedade difícil de intimidar.
Uma sociedade na qual o funcionário público não precise temer o governante; o jornalista não precise temer o anunciante; o empresário não precise temer o governante; o juiz não precise temer o tribunal; o professor não precise temer o reitor; e o cidadão não precise calcular, antes de abrir a boca, quanto lhe custará dizer a verdade.
Isso exige algo menos espetacular do que uma revolução e muito mais trabalhoso do que uma eleição.
Exige instituições independentes, imprensa plural, propriedade econômica disseminada, educação cívica, liberdade de associação, transparência, alternância efetiva de poder e, sobretudo, cidadãos dispostos a ocupar pacificamente o espaço público.
Porque existe uma ironia que o Psicopata nunca compreendeu:
o medo funciona magnificamente contra indivíduos isolados.
Contra uma sociedade que perdeu o medo, funciona muito mal.
E talvez por isso a última cena da história não devesse mostrar o Psicopata caindo.
Seria fácil demais.
Deveria mostrar apenas uma praça.
Primeiro, vazia.
Depois, uma pessoa.
Depois, dez.
Depois, cem.
Depois, milhares.
Nenhuma delas armada.
Nenhuma delas pedindo a deposição de um governo pela força.
Apenas pessoas dizendo, em voz alta, aquilo que durante anos haviam aprendido a sussurrar:
“Não.”
O Psicopata descobriria então sua única verdadeira fraqueza.
Ele conseguia comprar indivíduos.
Conseguia intimidar indivíduos.
Conseguia destruir indivíduos.
Mas ainda não havia descoberto como ameaçar, simultaneamente, uma sociedade inteira que decidira não obedecer ao medo.
E talvez seja aí que a história, finalmente, deixe de ser uma sátira sobre um psicopata que se tornou presidente.
E passe a ser uma advertência sobre aquilo que uma sociedade pode se tornar quando deixa de acreditar que tem o direito de impedir que ele chegue lá.
